Dez anos de história – Entrevista com Silvio Essinger

almanaqueAnos90_2Imagine escrever um livro sobre uma década inteira? Pesquisar durante dois anos para traduzir dez anos de história em 288 páginas?. Dá trabalho, mas foi o que o jornalista carioca Silvio Essinger fez em seu último livro “Almanaque anos 90”, lançado em 2008 pela Editora Agir.

Essinger é um especialista em obras de memória, antes do Almanaque ele escreveu “Punk Anarquia Proletária e a Cena Brasileira” (1999), “Batidão – Uma História do Funk” (2005) e “O Baú do Raul Revirado” (2005).

 O Babalu é Califórnia convidou o autor para inaugurar nossa seção de entrevistas e ele gentilmente aceitou responder nossas perguntas por e-mail. O resultado você confere logo abaixo!

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Silvio Essinger, autor do livro Almanaque Anos 90

O que mais te marcou nos anos 90?
Bom, eu nasci em dezembro de 1970, o que significa que passei dos 19 aos 29 nos anos 90. Eu gostava muito de música, de cinema e de TV – Nirvana, Quentin Tarantino e Os Simpsons representam a base de tudo que eu admiro até hoje, a base do meu pensamento. E tive a sorte de começar a trabalhar com jornalismo nos anos 90, o que me possibilitou uma vivência intensa desse meu, digamos, “objeto de estudo”.

Como surgiu a ideia do livro?
Foi bem simples. No fim de 2005, quando o Almanaque Anos 80 começou a fazer sucesso, eu tinha acabado de lançar pela Ediouro o Baú do Raul Revirado, que é uma espécie de almanaque do Raul Seixas. Resolvi então perguntar ao meu editor se ele não gostaria que alguém fizesse o livro sobre os anos 90 – eu achava que dava pé para mim, apesar de ser uma tarefa um tanto quanto ambiciosa. Ele topou e lá fui eu.

Quanto do Almanaque anos 90 foi feito a partir da sua memória e quanto foi de pesquisa?
O ponto de partida, com certeza, foi aquilo que eu conseguia lembrar de imediato. Fiz um mapinha inicial que, com, uma pesquisa em revistas e sites, foi crescendo, crescendo, e acabou dando no que é o livro. Digamos que as lembranças foram 30% do negócio.

Quanto tempo você demorou para conceber o Almanaque?
Da proposta ao livro nas lojas, foram uns dois anos. Li muitos livros, folheei muitas revistas, revi filmes, reouvi discos e fiquei de papo furado com muitos amigos. Tive uma pesquisadora, a Elis, que leu bastante coisa e me ajudou na seleção de assuntos, mas esse foi basicamente um trabalho solitário.

Enquanto você estava fazendo a pesquisa para o livro, teve algo com que você se deparou e que provocou em você uma sensação de nostalgia? O quê?
O mais curioso para mim, por incrível que pareça, não foi lembrar de coisas da qual tinha esquecido ou das quais sentia saudades (pouca coisa, na verdade), mas de conhecer aquilo que passou por baixo do meu nariz nos 90. Foi o caso, por exemplo, da cultura dos videogames – algo fundamental que eu simplesmente não vivi, que deixei passar.

Você acha que o pouco tempo (8 anos) entre o fim da década de 90 e o lançamento do livro, fizeram com que você deixasse passar coisas importantes?
Ao contrário: a vantagem do pouco tempo que se passou é que a memória está mais fresca, e muito do que foi importante ainda está aí. O desafio era achar aquilo que ficou datado, esquecido, e do qual a gente possa dizer: ah, isso foram os 90!

Na apresentação do livro, você fala que no início dos anos 90, as pessoas especulavam sobre o que seria da década, e que isso, na época, era totalmente imprevisível. Agora que já estamos nos anos 2000, como você classifica a década passada?
Dos 90 eu diria que ali realmente a gente entrou de um jeito e saiu de outro. Mas não como pessoas (todas as revoluções de comportamento tinham sido feitas antes) e sim como consumidores – a parafernália que nos cerca é que avançou e se multiplicou como nunca antes. Eu diria que os 90 nos equiparam tecnologicamente para o futuro – sejá lá qual for ele, Jetsons, Blade Runner ou nenhuma das respostas abaixo.

Também no texto de apresentação, você fala que o Kurt Cobain inaugurou o pensamento de que “ser diferente é normal”. O que você destaca dos anos 90 como algo que era totalmente diferente e passou a ser normal?
A patricinha com tatuagem na nuca e piercing no umbigo, por exemplo. É até bizarro pensar que isso é algo normal hoje em dia!

Você também fala sobre como o humor ganhou novas dimensões e como se passou a fazer piada de tudo. Você vê isso de maneira positiva?
Sim, e é uma coisa da qual eu sinto bastante falta nesses anos 00 de grande correção política. Nesse sentido, de que se podia fazer piada com tudo e hoje não mais, eu acho que a gente retrocedeu.

O que você acha dos jovens de hoje em dia? Você vê muita influência da “mistureba” de estilos e comportamentos dos anos 90 neles?
Para os jovens de hoje em dia acho que não existe essa noção de “mistureba” – eles nasceram num mundo que já era misturado e não se dão muita conta de que, há 20 anos ou mais, havia uma grande segmentação e, muitas vezes, você tinha que fuçar bastante para conseguir aquilo de que gostava. Hoje está tudo na internet, de graça e com uma fartura e uma diversidade inimagináveis há poucos anos. A mistura, para esses garotos, é algo natural, eles nem se perguntam por que é assim – e tudo começou a virar realidade nos anos 90.

Quais elementos culturais dos anos 90 você destaca como boas e más influências para as crianças/adolescentes da época?
Eu não falaria em boas ou más infuências… Mas, se a gente tomar o exemplo do Beavis & Butt-Head, dá para colocar as coisas em perspectiva. Eu lembro de ter rido bastante com as grosserias deles na época e de, alguns anos depois, ter pensado: espero que nenhum dos meus sobrinhos leve aquilo a sério e queira fazer igual a eles. Esse é o problema de ter sátiras muito violentas, como as que surgiram aos borbotões nos anos 90, e crianças fora das escolas, ou longe da supervisão dos pais. A gente nunca sabe que interpretação elas vão fazer daquilo.

Do que você sente saudades e o que você queria esquecer dos anos 90?
Eu sinto saudade da minha ingenuidade. E, ao mesmo tempo, eu queria esquecer muitos dos enganos que eu cometi por causa dessa mesma ingenuidade. Mas vamos falar de algo mais concreto: eu tenho saudade daquilo que eu senti ao ouvir o “Nevermind” e ver o “Pulp Fiction” pela primeira vez.

Você acompanha a repercussão do Almanaque entre os leitores?
Para falar a verdade, não tenho acompanhado muito, não. Ouço as observações, críticas e eventuais elogios quando chegam a mim, mas não saio procurando por eles. Acho que esse livro não me pertence mais.

Natalia Guaratto

3 Respostas

  1. Muito bom! A observação dele sobre a patricinha com tatuagem na nuca e piercing no umbigo procede demais e é uma parada que eu nunca tinha me atentado..

  2. Muito boa a entrevista. Quero ler essa sintese que o autor fez da decada e seus elementos que foram o entorno do nosso desenvolvimento na infancia…

  3. MUITO bacana a entrevista! Espero ver bons posts como este em breve =)

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